Doce Primavera

Um jovem chamado Sung estudava no templo da Doce Primavera, quando, ao anoitecer, deparou-se com uma garota lindíssima que o observava do lado de fora da janela.

-Como você parece compenetrado quando estuda! – ela lhe disse.

O templo da Doce Primavera ficava isolado no alto de montanhas rochosas e Sung surpreendeu-se por encontrar esta jovem desconhecida nos seus arredores. Ele sorriu e ficou quieto, sem saber o que responder. A jovem rapidamente aproximou-se dele e Sung admirou-se com a leveza de deus movimentos e a alegria de seu lindo sorriso. “Será que ela é humana? Ou se trata de uma miragem, uma espécie de aparição?”, ele pensou. E como se adivinhasse seus pensamentos, a jovem lhe disse:

-Eu sou real e quero fazer-lhe companhia!

Sentindo-se muito atraído por ela, Sung passou a noite em claro, conversando e rindo com a bela desconhecida.

-Você tem uma voz maravilhosa – ele lhe disse -. Todas as palavras que pronuncia parecem impregnadas de uma doçura sobrenatural. Ela sorriu e cantou, marcando o ritmo da canção com os pés delicados, uma canção que dizia:

Os pássaros não sabem entoar

O canto da meia-noite

E o frio não pode me afastar

De meu jovem mestre e senhor

 

A melodia era tão deliciosa que parecia adoçar o ar, tocando o coração do rapaz. E, enquanto ele a ouvia, completamente deliciado, a jovem abriu a porta, olhou para fora e disse:

– Eu só precisava ter certeza de que estamos a sós.

– Mas por quê? Você está com medo de algo?

– Existe um antigo provérbio que diz assim:  “o espírito que se infiltra na vida deve temer tudo e todos”.

Sem compreender o significado dessas palavras, o jovem a abraçou, apaixonado, e ela acrescentou:

– Logo terei que partir. Sinto perigo à espreita. Minha vida está chegando ao fim.

Sung não acreditou naquelas palavras, apenas sorriu e tentou tranquiliza-la, mas a jovem não se acalmava e pediu para que ele a acompanhasse até a porta.

– Preciso respirar ar puro – ela lhe disse, e saiu para o jardim.

Sung a aguardou, certo de que ela voltaria rapidamente, mas isso não aconteceu. Preocupado, ele a procurou por todos os arredores do templo, mas não conseguiu encontra-la. Nervoso, ele voltou para dentro do templo na esperança de tê-la de volta, mas ao entrar, ouviu apenas a voz suave e abafada da jovem, em prantos. Percebendo que o som de choro saía das plantas do jardim, caminhou em direção dele, mas, no lugar da garota, encontrou uma teia na qual uma abelha pequenina fora aprisionada. Sung libertou a abelha dos fios e a depositou, cuidadosamente, sobre sua escrivaninha. Quando a abelha conseguiu se mover, ela molhou as patinhas na tinta e caminhou sobre uma folha de papel, escrevendo uma única palavra:

OBRIGADA!

      Em seguida, alçou voo e saiu pela janela para nunca mais voltar.

P’u Sung-ling

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s