Tradição e Modernidade: As Duas Faces da Sociedade Japonesa

Acredite, pode-se dar muita asa à imaginação nas 24 horas de um voo até o Japão. Claro que um dia inteiro dentro de um avião parece um passeio diante dos 52 dias enfrentados pelos primeiros imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil num navio, noventa anos atrás. Mas ainda assim é um bocado de tempo, principalmente para quem só tem a opção de ficar sentado a 10 mil metros do solo. Em situações como essa, boa leitura e um pouco de fantasia ajudam a preservar a sanidade mental.

E o Japão, ainda bem, oferece farto material para isso. Tome um livro de história japonesa e descubra que o país se mantém fiel a uma sucessão de imperadores que, segundo a tradição, teria começado em 660 antes de Cristo e que perdura ainda hoje. Quer mais tradição? Nesses 2.600 anos, o Japão viveu muito: alternou fases de grande florescimento com períodos de profundo declínio. Experimentou a opulência e a miséria. Sua capital imperial mudou quatro vezes de lugar, deixando impressas em cada nova sede as marcas arquitetônicas e culturais das cortes da época.

Os japoneses foram na maior parte dessa história um povo separado não só geograficamente pelas ilhas, mas também politicamente. E só se reuniram numa mesma nação ao final de sangrentas batalhas entre os príncipes feudais. Donos de seu próprio nariz graças ao isolamento insular, puderam selecionar o que lhes interessava das culturas vizinhas, descartando o que consideravam indesejado. O resultado dessa assimilação seletiva foi o surgimento de uma visão própria do mundo, que acabou se manifestando nos templos zen-budistas, na veneração da natureza do xintoísmo, na submissa delicadeza das gueixas, na cerimoniosidade das relações pessoais, no artesanato de papel, nos jardins de pedra e nos bonsais.

Diante da força e longevidade dessas tradições, a modernidade tecnológica e o estilo de vida ocidental das últimas décadas podem parecer contraditórios. Mas não se deixe enganar pelas aparências. Os japoneses não abandonaram suas antigas raízes. Hoje, como antes, continuam escolhendo a dedo o que desejam. O mundo moderno não arrombou sua porta, mas foi recebido no que tinha de mais interessante a oferecer. Os japoneses conseguiram incorporar a produção industrial em série, o chip eletrônico e a robotização mantendo relações sociais e esquemas mentais de séculos atrás. É quase um feudalismo cibernético. […]

No Japão, é bom que você entenda logo, as tradições valem muito. Mesmo os adolescentes que circulam pelo bairro Shibuya, em Tóquio, e que adoram imitar os modismos do ocidente (são punks com cabelos de crista de galo, heavy-metals com jaquetas de couro e vários outros tipos que parecem saídos de uma rua de Londres) mais cedo ou mais tarde se enquadram e passam a viver como seus pais. Assim tem sido há séculos. É que no mundo adulto japonês não há espaço para a vida alternativa.

 

Vinícius Romanini. “Japão: o outro lado do mundo”.

In: Os Caminhos da Terra, ano 7, n. 8. São Paulo.

Abril, agosto/ 1998.

 

Mais um prédio na noite agitada de Tóquio, a maior cidade de todas as cidades

Os japoneses não são um povo extrovertido, eles são controlados e de uma tranquilidade impressionante para nós ocidentais. No pior terremoto do Japão que aconteceu no começo desse ano, você provavelmente não viu saques às lojas, pessoas correndo desesperadas e outras atrocidades como você veria se isso acontecesse no Brasil.

O país com a maior expectativa de vida do mundo e com o grupo de ser humano que mais vive na Terra (as japonesas) também tem seus períodos de desafios e decadência, o Japão, junto com a Rússia, Alemanha e alguns países do leste europeu vai ter sua população reduzida com o passar do tempo, se o Japão quiser se manter com idade para trabalhar na média de 87,5 milhões de pessoas (registrada em 1995), vai ter que importar 609 mil imigrantes por ano durante meio século, caso o Japão siga essas recomendações da ONU, vai ter 30% da sua população em 2050 de imigrantes e seus descendentes. Isso é quase uma afronta à fechadíssima sociedade japonesa.

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