Quando A Sorte Se Disfarça

No país de Sung havia uma família famosa por sua generosidade. Durante várias gerações, todos viveram em paz e em tranquilidade até que algo muito estranho aconteceu: uma vaca preta deu à luz um bezerro branco. O chefe da família interpretou o fato como um sinal de alerta e foi até o sábio Confúcio perguntaram-lhe sobre o significado desse nascimento.

Confúcio respondeu:

– Esse bezerro é sinal de felicidade.

Um ano depois, o chefe da família ficou chego de um olho e na mesma ocasião, a vaca negra deu à luz outro bezerro branco. Então ele pediu ao filho que falassenovamente com Confúcio.

Ao ouvir a notícia do nascimento do segundo bezerro branco, Confúcio repetiu:

– Esse bezerro é sinal de felicidade.

Um ano mais tarde, sem nenhuma razão aparente, o jovem que consultara Confúcio ficou totalmente cego e passou a duvidar da sabedoria do mestre.

Pouco depois, o país  de Sung foi atacado por um poderoso exército. Todos os homens foram convocados a lutar. Porém a guerra foi perdida e os soldados que defendiam as terras, exterminados. Os únicos sobreviventes do país de Sung foram justamente o pai e seu filho cego.

Assim que a paz se instalou novamente, pai e filho recuperaram a visão. Muitas vezes, a sorte se disfarça.

Lieh tse

A Ponte Mal-assombrada

Em Hangchow havia uma ponte que todos diziam ser mal-assombrada. Certa vez, um jovem viajante teve que se esconder debaixo dela para proteger-se de uma tempestade. Ao avistá-lo de cima da ponte, outro viajante cismou que o pobre jovem era um fantasma. Fechou o guarda-chuva e o utilizou como se fosse uma lança para afastá-lo. Durante a luta, o jovem foi atirado às águas do rio, mas como nadava muito bem, conseguiu salvar-se. Depois, o jovem saiu correndo assustado pela estrada até encontrar uma casa de luzes acesas. Desesperado, bateu à porta, e quando os moradores o acolheram, disse:

– Fui atacado por um estranho fantasma de guarda-chuva que queria me matar! Quase morri! Mas, felizmente, consegui escapar!

– Eu também vi um fantasma hoje! Escondido debaixo da ponte!

De repente, o jovem e o dono da casa se entreolharam, reconheceram-se e, às gargalhadas, perceberam como tinham sido loucos!

Na noite seguinte, nessa mesma ponte, um homem sem lanterna caminhava assustado até ouvir um estranho ruído que o acompanhava. Ele se virou e deparou-se com uma cabeça imensa sobre um pequeno corpo. O homem perdeu o ar e ficou paralisado. O corpinho que carregava a cabeça gigante também parou. O homem saiu correndo. O corpinho o seguiu. Em pânico, o homem entrou numa cabana, mas antes que conseguisse fechar a porta, o corpinho também entrou logo atrás dele.

Apavorado, o homem desmaiou. Quando finalmente despertou, viu que estava na cabana, iluminada por uma vela, ao lado de um menino que carregava um cesto na cabeça.

– Boa noite, senhor – ele disse. – Tenho tanto medo da lenda da ponte mal-assombrada que assim que o vi, aproveitei para ficar ao seu lado. Eu o segui porque sabia que o senhor me protegeria dos fantasmas. Tenho certeza de que um adulto nunca teria medo das assombrações, não é mesmo?

Lang Ying

 

Doce Primavera

Um jovem chamado Sung estudava no templo da Doce Primavera, quando, ao anoitecer, deparou-se com uma garota lindíssima que o observava do lado de fora da janela.

-Como você parece compenetrado quando estuda! – ela lhe disse.

O templo da Doce Primavera ficava isolado no alto de montanhas rochosas e Sung surpreendeu-se por encontrar esta jovem desconhecida nos seus arredores. Ele sorriu e ficou quieto, sem saber o que responder. A jovem rapidamente aproximou-se dele e Sung admirou-se com a leveza de deus movimentos e a alegria de seu lindo sorriso. “Será que ela é humana? Ou se trata de uma miragem, uma espécie de aparição?”, ele pensou. E como se adivinhasse seus pensamentos, a jovem lhe disse:

-Eu sou real e quero fazer-lhe companhia!

Sentindo-se muito atraído por ela, Sung passou a noite em claro, conversando e rindo com a bela desconhecida.

-Você tem uma voz maravilhosa – ele lhe disse -. Todas as palavras que pronuncia parecem impregnadas de uma doçura sobrenatural. Ela sorriu e cantou, marcando o ritmo da canção com os pés delicados, uma canção que dizia:

Os pássaros não sabem entoar

O canto da meia-noite

E o frio não pode me afastar

De meu jovem mestre e senhor

 

A melodia era tão deliciosa que parecia adoçar o ar, tocando o coração do rapaz. E, enquanto ele a ouvia, completamente deliciado, a jovem abriu a porta, olhou para fora e disse:

– Eu só precisava ter certeza de que estamos a sós.

– Mas por quê? Você está com medo de algo?

– Existe um antigo provérbio que diz assim:  “o espírito que se infiltra na vida deve temer tudo e todos”.

Sem compreender o significado dessas palavras, o jovem a abraçou, apaixonado, e ela acrescentou:

– Logo terei que partir. Sinto perigo à espreita. Minha vida está chegando ao fim.

Sung não acreditou naquelas palavras, apenas sorriu e tentou tranquiliza-la, mas a jovem não se acalmava e pediu para que ele a acompanhasse até a porta.

– Preciso respirar ar puro – ela lhe disse, e saiu para o jardim.

Sung a aguardou, certo de que ela voltaria rapidamente, mas isso não aconteceu. Preocupado, ele a procurou por todos os arredores do templo, mas não conseguiu encontra-la. Nervoso, ele voltou para dentro do templo na esperança de tê-la de volta, mas ao entrar, ouviu apenas a voz suave e abafada da jovem, em prantos. Percebendo que o som de choro saía das plantas do jardim, caminhou em direção dele, mas, no lugar da garota, encontrou uma teia na qual uma abelha pequenina fora aprisionada. Sung libertou a abelha dos fios e a depositou, cuidadosamente, sobre sua escrivaninha. Quando a abelha conseguiu se mover, ela molhou as patinhas na tinta e caminhou sobre uma folha de papel, escrevendo uma única palavra:

OBRIGADA!

      Em seguida, alçou voo e saiu pela janela para nunca mais voltar.

P’u Sung-ling

 

 

O Tigre Acompanha A Raposa

Certa vez, um tigre capturou uma pequena raposa. Mas ela lhe disse:

– Você não se atreverá a me devorar! Os deuses do céu me criaram para que eu fosse a líder de todos os animais! Se você me ferir, estará violando uma lei divina e os deuses o amaldiçoarão eternamente! E caso você duvide de minhas palavras, caminhe comigo pela floresta e veja se algum animal se atreverá a me atacar!

O tigre concordou e caminhou pela floresta acompanhando a raposa. Todos os animais que os encontraram afastaram-se rapidamente, temendo as terríveis garras do tigre, agora a serviço de sua nova amiga, a pequena raposa.

Convencido de que realmente a raposa era a líder de toda a floresta, o tigre afastou-se respeitoso em busca de novas vítimas.

Extraído da obra clássica Chan Kuo Ts’e (Intrigas dos estados guerrilheiros), de autor desconhecido.