Português, Primo do Sânscrito

Pode não parecer, mas as línguas evoluem segundo regras quase matemáticas, que ajudam a reconstruir a história humana.

Texto Reinaldo José Lopes*

Quem repara nas mudanças imprevisíveis de sentido que uma palavra pode sofrer em poucos anos pode até imaginar que as línguas são coisas vivas. E, de fato, os idiomas humanos compartilham com animais e plantas uma das propriedades fundamentais da vida: eles evoluem. “As línguas, como as espécies, evoluem por meio de um processo de descendência com modificação”, resume Mark Pagel, pesquisador da Universidade de Reading, no Reino Unido. Ou seja: quando línguas-mães (como o latim, digamos) sofrem mudanças, elas são herdadas pelas línguas-filhas (feito o português) e passadas adiante. O legal, porém, é que esse processo não é uma bagunça – pelo contrário. As línguas tendem, pelo menos em grande parte, a mudar ao longo do tempo seguindo padrões regulares, que ajudam a reconstruir a origem delas, e a das pessoas que as falavam, até o passado remoto.

Do Atlântico Ao Índico

A maior história de sucesso que decorreu dessa sacada é a descoberta de que muitas das línguas da Europa e da Ásia – do português, no oeste, a boa parte dos idiomas da Índia e do Paquistão, no leste – descendem de um só falar pré-histórico. Esse bisavô linguístico é o proto-indo-europeu, e por isso todas as línguas descendentes dele são chamadas de indo-europeias.

A árvore genealógica do indo-europeu tem sido refinada desde o século 18 por gerações de linguistas e conta uma história curiosa. A partir de um centro original que talvez ficasse na Ucrânia e na Turquia há pelo menos 6 mil anos, o proto-indo-europeu e seus idiomas-flihos foram se ramificando. A história registra as últimas fases disso, como a transformação do latim popular no português, no francês e no italiano. Mas os linguistas aprenderam a perceber semelhança claras entre idiomas muito mais distantes entre si. O truque é usar como guia o funcionamento da boca e das pregas vocais humanas, que impõe certos limites às mudanças dos sons. Os linguistas descobriram, por exemplo, que nas línguas germânicas (o grupo do inglês e do alemão), o som de p do proto-indo-europeu muitas vezes vira f. Ora, as duas consoantes são produzidas exatamente no mesmo local (ou ponto de articulação): a diferença é que o f inclui uma espécie de sopro. (Tente pronunciar o p deixando soltar o ar entre os lábios e você verá que sai é um f.) É por isso que o latim pisces e o inglês fish são, na prática, descendentes da mesma palavra original.

Essas regras ajudaram a reconstruir outras línguas em todas as partes do mundo – das florestas africanas aos desertos do Oriente Médio. Mesmo nas épocas em que não havia escrita, as palavras deixaram um registro da nossa história.

*Reinaldo Lopes é editor da Superinteressante.

Texto originalmente publicado em: Superinteressante, Nº: 245, páginas: 20 e 21.

Mike, O Frango Sem Cabeça

Ok, tudo tem limites, certo? Errado! Conheça agora a história de uma ave que foi decapitada e ficou por quase 20 meses viva.

Um dia antes da data mais assustadora dos Estados Unidos, só que em 1945, um pobre fazendeiro de Fruita, Colorado, resolveu fazer um jantar para sua sogra, na verdade, ele não iria fazer o jantar, mas sim, sua mulher. Lloyd Olsen (o fazendeiro) ia fazer apenas algo simples para ele, decapitar um frango para sua mulher cozinhá-lo.

Na hora de escolher o frango, Olsen escolheu uma ave, do sexo masculino, de apenas cinco meses e meio e a decapitou. Normal né? Não, depois de decapitada, a ave continuou viva, bem conheço alguns parentes meus que viveram na roça e contam que isso acontece de vez em quando, porém, o animal não dura muito tempo sem a cabeça.

Com Mike foi diferente, ele viveu durante DEZOITO MESES sem sua própria cabeça. Mike (assim batizado por Olsen) nasceu em abril de 1945, em 10 de setembro do mesmo ano, Mike foi decapitado de maneira errada, ou será que foi certa, já que o pobre franguinho conseguiu ganhar um bônus de tempo de vida?

Mike e Olsen

O que fez Olsen quando viu que a ave não morria? Suspendeu o jantar e colocou a cabeça decapitada sob a asa de Mike e assim ele dormiu o resto da noite.

E parece que um sentimento de arrependimento bate em Olsen, já que ele resolveu cuidar da ave alimentando-a com grãos de milho pequenos e uma mistura de leite e água que ele colocava numa conta gotas e derramava sobre a garganta sem cabeça de Mike. Como quase todos os animais, Mike produzia muco, entretanto, como esse muco não subia até a cabeça de Mike, então esse muco formava uma mini piscina na sua garganta, que Olsen e sua família tinham que retirar com seringas.

Agora vem a parte mais sinistra da história: mesmo sem cabeça, Mike (eu não sei como) conseguia pular nos poleiros mais elevados do galinheiro sem cair e seu canto era como se fosse um gorgolejo, igual ao barulho que fazemos quando tiramos a água restante depois de escovar os dentes.

Depois disso, como todo bom americano, Olsen foi fazer dinheiro com seu animalzinho. Mike virou celebridade, e fez diversas excursões com outros animais bizarros como uma vitela de duas cabeças (enquanto uns têm demais, outros não têm nada, coitado do Mike).

Olsen chegou no auge com suas excursões com Mike, a ganhar U$ 4.500 por mês. Mike já ficou em exposição por apenas 25 centavos. Olsen colocava uma cabeça cortada junto ao frango, só que essa cabeça não era original, tendo em vista que a original foi comida por um gato.

Mike numa exposição com uma cabeça falsa

Porém nem tudo é eterno, em Março de 1947 depois de um show em Phoenix, Arizona, Mike sufocou durante a noite e as seringas não estavam com Olsen, sendo ele, incapaz de salvar a ave. Bem a história pararia por aí já que oficialmente a morte de Mike acontece em março de 1947. Só que depois disso, Lloyd Olsen disse que vendeu Mike, o que gerou boatos de que ele estaria ainda em exposição até 1949.

O que será que aconteceu com Mike? Será que ele foi vendido vivo e continuou vivo com outro dono, ou ele teria morrido naquela mesma noite? Bem, eu não sei responder. Acredito que sim, veja o restante do artigo.

O que eu sei dizer é que mesmo sem cabeça, Mike engordou, morreu com 3 quilos e quando foi decapitado tinha apenas 1. Sei dizer também que (é agora que acredito que ele morreu) exames feitos após sua morte concluíram que a lâmina que cortou Mike tinha errado a veia jugular, formando um coágulo, ou seja, o sangue ficou preso, impedindo que sangrasse sem parar até morrer (bem, se fizeram esse exame depois da ave estar morta, muito provavelmente ela não estaria viva depois). Mike continuou com seu tronco cerebral e como a maioria das reações de uma galinha é controlada pelo tronco cerebral, Mike pode viver saudavelmente. Incrível não é mesmo?

Muitas pessoas tentaram fazer o mesmo que Olsen, mas as coitadas das aves não conseguiam viver por muito tempo. A banda californiana Radioactive Chicken Head fez uma canção sobre o Mike no álbum de 2008 chamado de “Music For Mutants” (Música Para Mutantes).

A banda californiana que fez a homenagem ao Mike, o frango que viveu sem cabeça

 

O Evento Tunguska

Você já ouviu falar no Evento Tunguska? Quando eu vi o título, não dei muita importância, mas só fui ver do que se tratava que aí sim, a minha ficha caiu, primeiro vamos ler o relato de duas testemunhas, só depois então veremos definições sobre o evento, teorias etc.

Relatos das Testemunhas

Testemunho de Chuchan da Tribo Shanyagir, registrado por IM Suslov em 1926.

Eu minha família tínhamos uma cabana à beira do rio com o meu irmão Chekaren. Nós estávamos dormindo. De repente nós dois acordamos, ao mesmo tempo. Alguém nos empurrou. Ouvimos assobios e sentimos um vento forte. Chekaren disse: ‘Você pode ouvir todos os pássaros que voam lá em cima? ” Nós dois estávamos na cabana, não podíamos ver o que estava acontecendo lá fora. De repente, eu fui empurrado novamente, desta vez com tanta força que cai. Eu fiquei com medo. Chekaren ficou com medo também. Nós começamos a gritar o pai, mãe, irmão, mas ninguém respondeu. Houve ruídos para além da cabana, podíamos ouvir as árvores caindo. Chekaren e eu saímos de nossos sacos de dormir e queríamos correr para fora, mas então veio o soar do trovão. Este foi o primeiro trovão. A terra começou a se mover e a se agitar, o vento atingiu a nossa cabana e a derrubou. Meu corpo foi empurrado pelas madeiras (da cabana) que voavam e caíam, mas eu estava lúcido. Então foi que eu me maravilhei: as árvores estavam caindo, os galhos estavam em chamas, a explosão se tornou poderosa e brilhante, como posso dizer isso, era como se houvesse um segundo sol, meus olhos estavam ardendo, mesmo eu os fechando. Era como que se os russos chamassem relâmpagos. E imediatamente houve um trovão forte. Este foi o segundo trovão. A manhã estava ensolarada, não havia nuvens, o sol brilhava como de costume, e como de repente veio mais um trovão?

Chekaren e eu tivemos certa dificuldade em sair de debaixo dos restos da nossa cabana. Então vimos que acima, mas em um lugar diferente, um outro flash, e um forte trovão veio. Este foi o terceiro. Vento voltou, e nos jogou para fora da cabana, e nós nos chocamos com as árvores caídas.

Nós olhamos para as árvores caídas, assisti as copas das árvores se arrebentarem, assisti as chamas. De repente Chekaren gritou “Olhe para cima” e apontou com a mão. Eu olhei para lá e vi um outro flash, e com ele outro trovão. Mas o barulho foi menor do que antes. Este foi o quarto ataque, como um trovão normal.

Agora eu me lembro bem, houve também mais um trovão, mas era pequeno, e em algum lugar longe, onde o sol vai dormir.

Testemunho de S. Semenov, registrado por Leonid Kulik na expedição em 1930.

Na hora do café-da-manhã, eu estava sentado ao lado de casa no posto comercial de Vanavara [há 65 quilômetros ao sul da explosão], de frente para o norte. […] De repente vi que diretamente para o norte, sobre a estrada de Onkoul Tunguska, o céu se dividiu em dois e o fogo apareceu alto e largo sobre a floresta. A divisão no céu cresceu e todo o lado norte estava coberto de fogo. Naquele momento fiquei tão quente que eu não podia suportar, era como se minha camisa estivesse pegando fogo, a partir do lado norte, de onde o fogo veio, veio forte calor. Eu queria rasgar a minha camisa e arremessá-la para longe, mas então o céu se fechou, e uma pancada forte soou, e fui atirado a alguns metros. Eu perdi meus sentidos por um momento, mas depois minha esposa correu para fora e me levou para dentro de casa. Depois que o ruído veio, era como se as rochas estivessem caindo ou canhões estivessem sendo disparados, a terra tremeu, e quando eu estava no chão, eu pressionei a minha cabeça para baixo, temendo que rochas o esmagassem. Quando o céu se abriu, o vento quente correu entre as casas, como disparo de canhões, que deixam vestígios no chão, igual a percursos, e então danificou algumas colheitas. Mais tarde, vimos que muitas janelas foram quebradas, e no celeiro uma parte do bloqueio de ferro partiu.

Isso quase resume o que o evento Tunguska foi realmente.

O Evento Tunguska

Em 30 de junho de 1908 por volta das 7 e 17 da manhã, no noroeste das colinas do lago Baikal, moradores dessa região observaram algo espantoso, uma coluna de luz azulada brilhante, tão brilhante como o sol, se movendo no céu. Cerca de dez minutos depois, houve um flash e um ruído, um ruído com som semelhante a fogos de artilharia. Os sons foram acompanhados por uma onda de choque que derrubou e jogou pessoas para fora do lugar de onde estavam e quebrou janelas a centenas de quilômetros de distância. Todos os relatos testemunham isso, sons, tremores e arremessos humanos, os relatos só se divergem à sequência de eventos e a duração do tal. E apesar do evento ter acontecido em 1908, as expedições só começaram vários anos depois.

O evento aconteceu perto do rio de antigo nome chamado Tunguska Podkamennaya, que hoje é Krasnoyarsk Krai.

Essa explosão registrou abalos sísmicos em toda a Eurásia, em alguns lugares, o abalo poderia ter sido igual a um terremoto de 5,0 graus na escala Richter.

O número de jornais, relatos, publicações acadêmicas sobre o evento Tunguska poderia ser em torno de 1.000 (a maioria é claro, em russo). Vários cientistas têm participado de estudos sobre o evento, os mais conhecidos são Leonid Kulik (o mesmo que registrou o segundo relato da testemunha), Yevgeny Krinov, Kirill Florensky, Nikolai Vladimirovich Vasiliev e Wilhelm Fast.

Teorias

Bem, existe um monte de teorias bem malucas para o evento Tunguska, teorias envolvendo antimatéria, discos voadores e acredite, buracos negros! Todas com um pequeno fundo de verdade, mas vamos direto ao ponto: a teoria mais aceita no momento para o evento Tunguska.

Veja a imagem a seguir:

Esse é um esquema da teoria mais aceita do evento Tunguska

Siga o raciocínio a seguir, o meteoro vem do céu (óbvio!), enquanto ele está descendo, ele explode e a força da explosão vai para todos os lados, inclusive para baixo, (que é onde estão as pessoas [óbvio de novo, né?]), e é essa força que conseguiu derrubar as árvores, as pessoas, as casas, quebrar janelas, destruir colheitas e outros tantos prejuízos. É essa teoria que é a mais aceita para o evento. É claro que eu simplifiquei bastante, não quero entrar em termos técnicos de física de como por exemplo, qual foi o fenômeno que fez o asteroide explodir ou que tipo de reações químicas aconteceram durante a explosão.

A ilustração mostra como pode ter sido o evento Tunguska

O que nós precisamos entender é que, em vez de bater no solo, o meteoro explodiu no ar (cerca de 10 a 50 quilômetros acima do solo) e o impacto do ar também atingiu o chão carregando um monte de prejuízos para a região.

Conclusão

O evento Tunguska foi realmente poderoso, ele foi cerca de 1.000 vezes mais potente do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, no Japão, teve cerca de um terço da energia da Bomba Tsar, a maior arma nuclear já detonada. A explosão derrubou cerca de 80 milhões de árvores (que até hoje não voltaram ao normal) cobrindo 2.150 quilômetros quadrados, o choque teria medido 5,0 graus na escala Richter, magnitude capaz de não só destruir uma cidade, mas sim, uma grande região metropolitana inteira. Embora possa ter acontecido outro evento superior em alguma área remota oceânica que tenha passado despercebido, a explosão de Tunguska é o maior evento de impacto de meteoro (ou de qualquer outro corpo celeste) na história recente do planeta Terra.