E Não Sobrou Ninguém

Na primeira noite eles se aproximam, 
roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, 
matam nosso cão, 
e não dizemos nada.
Até que um dia 
o mais frágil deles 
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo o nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E já não dizemos nada 

 Vladimir Maiakovski 

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A Lebre com Olhos de Âmbar

Elegante, original e brilhante.

Mas uma vez eu aviso, esse post contém spoilers, então se você está a fim de ler esse livro, não leia esse post, vá procurar outro post sem spoilers!

Você tem algum objeto que tem uma história interessante? O nome desse blog é em homenagem a um brinquedinho que eu tive (saiba mais aqui) um flamingo, mas esse brinquedo não teve nada de mais em sua história, ele foi comprado pelo meu pai em 2004 nos dias das crianças e… só!

Quantas vezes você já leu algum livro sobre a história de bonequinhos? Se a resposta foi nenhuma, bem-vindo ao grupo, isso e outras coisas fazem esse livro realmente especial, um livro que conta a trajetória dos netsuquês (pequenos objetos artesanais japoneses) e não só isso ele conta a história da família do autor além de falar sobre a primeira, segunda guerra mundial e a ocupação norte americana no Japão pós-guerra, é, esse livro é um livro completo.

O começo do livro já te surpreende com a árvore genealógica da família do autor, a família Efrussi ou Ephrussi (como é escrito normalmente durante o livro) tem suas origens em Odessa, uma cidadezinha no sul da Rússia, Charles Joachim Ephrussi, que se chamava Chaim (seu nome judaico [sim, os judeus mudavam seus nomes quando eles migravam para a Europa porque os nomes deles não eram “agradáveis aos ouvidos”]) e Belle (que se chamava Balbina) são o começo da família, mas bem longe da história dos netsuquês.

A história dos netsuquês começa com Charles, mas não esse Charles que eu acabei de mencionar acima, esse é outro Charles que é neto do primeiro Charles, sim, esse é um livro complexo e a criatividade para nomes da família Ephrussi só ajuda. Ele tinha uma amante e na época era modinha ter coisas do Japão eeee… Charles encomendou 264 miniaturas japonesas (os netsuquês) até agora eu não sei o porquê de exatamente 264, por que não 200 ou 300 ou 250? Mas deixa pra lá, continuando, ele deu esses netsuquês de presente para o casal que acabara de se casar: Viktor e Emmy (Só que… Do Charles ganhar os netsuquês até ele dar de presente ao casal, haja história, eu acho que são quase ou mais de 100 páginas até isso acontecer).

Atravessando a Primeira Guerra Mundial, a melhor (ou uma das melhores) parte do livro é quando tem o começo da Segunda Guerra Mundial, no qual a poderosa família

Ephrussi (de origem judaica) é expulsa de seu belo palácio e a família acaba se espalhando pelo mundo (México, Inglaterra, Estados Unidos etc.) e me esqueci de mencionar que, o casal Viktor e Emmy além dos três filhos, Elizabeth (avó do autor), Ignace (antigo dono dos netsuquês) e Gisela (que foi morar no México), tinham uma emprega super fiel, Anna.

Anna trabalhava desde sua adolescência (14, eu acho) para Emmy e mesmo quando esta se casou com Viktor, continuou firme, ajudou a cuidar das três crianças e quando o pessoal da SS expulsou o casal do palácio e o mesmo pessoal disse para Anna ter vergonha de trabalhar para judeus e ser proibida de trabalhar para eles; Anna simplesmente continuou no palácio e fez algo incrivelmente incrível: como os oficiais da SS estavam ocupados demais confiscando as obras de arte, móveis e outros objetos de valor do palácio, Anna foi pegando de pouquinho em pouquinho todos os netsuquês.

Quando Elizabeth voltou à mansão (depois da guerra) Anna entregou os netsuquês para ela. Depois disso, Elizabeth mostrou ao seu irmão Ignace os netsuquês e, este pareceu ter tido um surto de nostalgia (já que ele e as duas irmãs brincavam com os netsuquês na infância) e decidiu participar da ocupação norte-americana no Japão, dizendo que iria devolver os netsuquês de volta ao país de origem.

Ignace morreu e os netuquês ganharam um novo dono e novo lar, agora as centenas de mini esculturas foram para as mãos de Edmund de Waal e em vez de ficarem no Japão, foram para a Inglaterra e… Fim!

A lebre com olhos de âmbar não tem lá as melhores qualificações para atrair leitores (uma história de bonequinhos japoneses), mas Edmund me surpreendeu, mostrando que aqueles netsuquês tiveram uma história fantástica, assim como sua família, A lebre com olhos de âmbar é um livro que dá vontade de dá de presente para todo o mundo.

Dados do livro

Título A lebre com olhos de âmbar
Autor Edmund de Waal
Título original The hare with amber eyes
Tradutor Alexandre Barbosa
Editora Intríseca
Páginas 318

O Evento Tunguska

Você já ouviu falar no Evento Tunguska? Quando eu vi o título, não dei muita importância, mas só fui ver do que se tratava que aí sim, a minha ficha caiu, primeiro vamos ler o relato de duas testemunhas, só depois então veremos definições sobre o evento, teorias etc.

Relatos das Testemunhas

Testemunho de Chuchan da Tribo Shanyagir, registrado por IM Suslov em 1926.

Eu minha família tínhamos uma cabana à beira do rio com o meu irmão Chekaren. Nós estávamos dormindo. De repente nós dois acordamos, ao mesmo tempo. Alguém nos empurrou. Ouvimos assobios e sentimos um vento forte. Chekaren disse: ‘Você pode ouvir todos os pássaros que voam lá em cima? ” Nós dois estávamos na cabana, não podíamos ver o que estava acontecendo lá fora. De repente, eu fui empurrado novamente, desta vez com tanta força que cai. Eu fiquei com medo. Chekaren ficou com medo também. Nós começamos a gritar o pai, mãe, irmão, mas ninguém respondeu. Houve ruídos para além da cabana, podíamos ouvir as árvores caindo. Chekaren e eu saímos de nossos sacos de dormir e queríamos correr para fora, mas então veio o soar do trovão. Este foi o primeiro trovão. A terra começou a se mover e a se agitar, o vento atingiu a nossa cabana e a derrubou. Meu corpo foi empurrado pelas madeiras (da cabana) que voavam e caíam, mas eu estava lúcido. Então foi que eu me maravilhei: as árvores estavam caindo, os galhos estavam em chamas, a explosão se tornou poderosa e brilhante, como posso dizer isso, era como se houvesse um segundo sol, meus olhos estavam ardendo, mesmo eu os fechando. Era como que se os russos chamassem relâmpagos. E imediatamente houve um trovão forte. Este foi o segundo trovão. A manhã estava ensolarada, não havia nuvens, o sol brilhava como de costume, e como de repente veio mais um trovão?

Chekaren e eu tivemos certa dificuldade em sair de debaixo dos restos da nossa cabana. Então vimos que acima, mas em um lugar diferente, um outro flash, e um forte trovão veio. Este foi o terceiro. Vento voltou, e nos jogou para fora da cabana, e nós nos chocamos com as árvores caídas.

Nós olhamos para as árvores caídas, assisti as copas das árvores se arrebentarem, assisti as chamas. De repente Chekaren gritou “Olhe para cima” e apontou com a mão. Eu olhei para lá e vi um outro flash, e com ele outro trovão. Mas o barulho foi menor do que antes. Este foi o quarto ataque, como um trovão normal.

Agora eu me lembro bem, houve também mais um trovão, mas era pequeno, e em algum lugar longe, onde o sol vai dormir.

Testemunho de S. Semenov, registrado por Leonid Kulik na expedição em 1930.

Na hora do café-da-manhã, eu estava sentado ao lado de casa no posto comercial de Vanavara [há 65 quilômetros ao sul da explosão], de frente para o norte. […] De repente vi que diretamente para o norte, sobre a estrada de Onkoul Tunguska, o céu se dividiu em dois e o fogo apareceu alto e largo sobre a floresta. A divisão no céu cresceu e todo o lado norte estava coberto de fogo. Naquele momento fiquei tão quente que eu não podia suportar, era como se minha camisa estivesse pegando fogo, a partir do lado norte, de onde o fogo veio, veio forte calor. Eu queria rasgar a minha camisa e arremessá-la para longe, mas então o céu se fechou, e uma pancada forte soou, e fui atirado a alguns metros. Eu perdi meus sentidos por um momento, mas depois minha esposa correu para fora e me levou para dentro de casa. Depois que o ruído veio, era como se as rochas estivessem caindo ou canhões estivessem sendo disparados, a terra tremeu, e quando eu estava no chão, eu pressionei a minha cabeça para baixo, temendo que rochas o esmagassem. Quando o céu se abriu, o vento quente correu entre as casas, como disparo de canhões, que deixam vestígios no chão, igual a percursos, e então danificou algumas colheitas. Mais tarde, vimos que muitas janelas foram quebradas, e no celeiro uma parte do bloqueio de ferro partiu.

Isso quase resume o que o evento Tunguska foi realmente.

O Evento Tunguska

Em 30 de junho de 1908 por volta das 7 e 17 da manhã, no noroeste das colinas do lago Baikal, moradores dessa região observaram algo espantoso, uma coluna de luz azulada brilhante, tão brilhante como o sol, se movendo no céu. Cerca de dez minutos depois, houve um flash e um ruído, um ruído com som semelhante a fogos de artilharia. Os sons foram acompanhados por uma onda de choque que derrubou e jogou pessoas para fora do lugar de onde estavam e quebrou janelas a centenas de quilômetros de distância. Todos os relatos testemunham isso, sons, tremores e arremessos humanos, os relatos só se divergem à sequência de eventos e a duração do tal. E apesar do evento ter acontecido em 1908, as expedições só começaram vários anos depois.

O evento aconteceu perto do rio de antigo nome chamado Tunguska Podkamennaya, que hoje é Krasnoyarsk Krai.

Essa explosão registrou abalos sísmicos em toda a Eurásia, em alguns lugares, o abalo poderia ter sido igual a um terremoto de 5,0 graus na escala Richter.

O número de jornais, relatos, publicações acadêmicas sobre o evento Tunguska poderia ser em torno de 1.000 (a maioria é claro, em russo). Vários cientistas têm participado de estudos sobre o evento, os mais conhecidos são Leonid Kulik (o mesmo que registrou o segundo relato da testemunha), Yevgeny Krinov, Kirill Florensky, Nikolai Vladimirovich Vasiliev e Wilhelm Fast.

Teorias

Bem, existe um monte de teorias bem malucas para o evento Tunguska, teorias envolvendo antimatéria, discos voadores e acredite, buracos negros! Todas com um pequeno fundo de verdade, mas vamos direto ao ponto: a teoria mais aceita no momento para o evento Tunguska.

Veja a imagem a seguir:

Esse é um esquema da teoria mais aceita do evento Tunguska

Siga o raciocínio a seguir, o meteoro vem do céu (óbvio!), enquanto ele está descendo, ele explode e a força da explosão vai para todos os lados, inclusive para baixo, (que é onde estão as pessoas [óbvio de novo, né?]), e é essa força que conseguiu derrubar as árvores, as pessoas, as casas, quebrar janelas, destruir colheitas e outros tantos prejuízos. É essa teoria que é a mais aceita para o evento. É claro que eu simplifiquei bastante, não quero entrar em termos técnicos de física de como por exemplo, qual foi o fenômeno que fez o asteroide explodir ou que tipo de reações químicas aconteceram durante a explosão.

A ilustração mostra como pode ter sido o evento Tunguska

O que nós precisamos entender é que, em vez de bater no solo, o meteoro explodiu no ar (cerca de 10 a 50 quilômetros acima do solo) e o impacto do ar também atingiu o chão carregando um monte de prejuízos para a região.

Conclusão

O evento Tunguska foi realmente poderoso, ele foi cerca de 1.000 vezes mais potente do que a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, no Japão, teve cerca de um terço da energia da Bomba Tsar, a maior arma nuclear já detonada. A explosão derrubou cerca de 80 milhões de árvores (que até hoje não voltaram ao normal) cobrindo 2.150 quilômetros quadrados, o choque teria medido 5,0 graus na escala Richter, magnitude capaz de não só destruir uma cidade, mas sim, uma grande região metropolitana inteira. Embora possa ter acontecido outro evento superior em alguma área remota oceânica que tenha passado despercebido, a explosão de Tunguska é o maior evento de impacto de meteoro (ou de qualquer outro corpo celeste) na história recente do planeta Terra.